A Casa do Tempo
- Vera Cristina Menezes

- 2 de mar.
- 2 min de leitura

Foram muitas as vezes que estivemos aqui. Desde a inauguração passamos por algumas reformas - no ambiente físico e no nosso emocional – mas, depois de quarenta anos, estão preservadas as estruturas do prédio e as nossas particularidades pessoais. Com frequência entramos nesse bar, reconhecendo quem somos e também o acolhimento da decoração que podemos descrever nos pormenores de todo insignificantes. Praticamente a nossa segunda casa. Muito provavelmente a primeira, depois de termo-nos encaixado na vida, sendo estes velhos solitários.
Se lembra? Nos tornamos amigos aqui dentro, ambos fugindo do exagero de quando o inverno derrama chuva. Rimos da situação e dividimos nossa primeira cerveja. Trocamos uma conversa boba qualquer, daquelas despretensiosas que duas pessoas estranhas compartilham, realçando o impulso de se apresentarem simpáticas somente para passar o tempo. Tínhamos a juventude, e talvez tenha sido esse detalhe nosso ponto de aproximação. A disponibilidade dos jovens em acreditar que o futuro a eles pertence, fez de nós amigos. Hoje, somos dois velhos e ainda temos assuntos compartilhados ao sabor do tempo e das cervejas. Sobre o futuro aprendemos a nos manter cautelosos e tímidos, mas sobre as recordações, essas sabemos como ninguém discorrer minuciosamente, acrescentando algumas pinceladas criativas, que não chegam a ser mentirosas.
Meu amigo, tantas noites estivemos aqui, conferindo o dia a dia no rebuliço dos momentos mais variados. Dividimos tantas parcelas de alegria, tantas quotas de ilusão, tantos fragmentos de saudades, muitas frações de esperança, sem falar nas porções de tristezas. Tem sido um vasto repertório de sentimentos, transitando na nossa existência. O que é um privilégio para dois acumuladores de lembranças, e temos um ao outro para retocar as eventuais falhas da memória. Sempre fomos compassivos, o que ainda nos permite um tanto de mesquinhez - que agora se confunde com rabugice – e muito de solidariedade espalhada pelo coração dos dias. Não nos faltaram alguns confrontos, mas esses serviram para reforçar nosso vínculo: nenhuma amizade verdadeira sobrevive se as diferenças não forem encaradas e as individualidades respeitadas. Nossa prática de vida foi assim construída. E hoje temos o tempo medido em solidez, sem segundas intenções, sem terceiros contornos. Somos apenas grandes amigos. E é tanto, e é raro.
Partilhamos tantas conversas e tantos silêncios nas mesas deste bar. Isso porque a eloquência dos olhos sempre soube expressar, principalmente, nossas tristezas. Depois de certo tempo, soubemos perceber tudo sem a exigência de muitas palavras e, sobretudo, passamos a compreender que, por mais alegre que possamos estar, a nossa felicidade sabe amparar o que no outro dói e ofusca. Uma parceria que atravessou o tempo e cabe inteira no nosso abraço. Sobra em nós filetes de esperança que distribuímos quando a vida sufoca; sobra em nós pitadas de ironia quando nos colocamos exageradamente sérios; sobra em nós a generosidade em aceitar os reveses das nossas expectativas frustradas. Sobra em nós, por fim e no fim, o amor.


Muito emocionante!"E é tanto. E é raro." Essa frase ecoou o sentimento ao ler... Emociona...
Que belo texto! Nostálgico. E rico em significados: versa sobre o passar do tempo; sobre a verdadeira amizad; sobre as lembranças ao longo da vida; sobre o que permanece, resiliente, apesar da passagem dos anos... A beleza dos encontros reside no conhecimento mútuo, que já nem precisa de palavras para expressar as alegrias ou as tristezas vividas: reconhece-se no silêncio, percebe-se no olhar e se revela no abraço. Creio que somente quem já viveu a vida pode entender a magia desses encontros, após quarenta anos de burilamento da casa do tempo e da casa da alma. Bravo!
Muito lindo, emocionante!!!!
Emocionei! Que linda experiência.