Meu Caro,
- Vera Cristina Menezes

- 28 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Hoje eu acordei contando as letras do seu nome e as comparei com o número delas no meu nome. Sorri porque ambos temos quantidade pares de letras, só que você tem mais duas para além das minhas quatro. Voltei a pensar que nada é muito justo nesse mundo: com menos dois sinais gráficos no meu nome, deveria ter ido na sua frente desvendar o desconhecido. Mas não foi assim, talvez porque eu tivesse mais a aprender nesta vida que você. Quem sabe tenham me deixado ficar aqui para me instruir sobre o básico de alguma coisa, que sem nenhuma pista do que pudesse ser, rodopiei sem perspectivas, num jogo de sorte e azar que até hoje tento decifrar, com a constante sensação de nunca alcançar qualquer justificativa.
Pensei que neste final de ano e quase início de um outro, eu não tivesse mais nada a lhe dizer ou a lhe ter como referência. E assim, querendo-me por distante, você foi chegando mais perto, invadindo as lembranças, repassando alguns momentos. Lembro nitidamente que a minha inabilidade para aqueles jogos de Atari era uma alegria para os demais jogadores: obrigatoriamente cedia a minha vez quando o helicóptero do “River Raid” batia em algum obstáculo qualquer. Todos felizes, e eu ia para o final da fila, aguardando pacientemente o cansaço abater os experientes competidores. Dava para eu ler um livro inteiro, esperando chegar novamente a minha vez, não que houvesse muitos concorrentes, mas os poucos tinham enormes habilidades, e as minhas sempre de iniciante. E assim para tudo nesta vida.
Mas tudo vai ficando meio esmaecido, sabe? O seu rosto me permanece muito nítido, mas tenho dificuldade em recordar a sua voz. Parece que o seu amor pela Geografia o está mantendo protegido em uma daquelas cidades ou países de nomes estranhos que você divulgava, obrigando-nos a confirmar localização, supondo serem frutos da sua imaginação. Nunca foram invencionices: os nomes eram esquisitos, mas todos existiam nos mapas. Também teve uma fase em que você terminava os correios eletrônicos, clamando pela volta do FHC. Tantos pedaços de convivência que, inutilmente, fico tentando distinguir nos meus retrovisores. A flacidez das lembranças acompanhou a flacidez dos meus músculos e o que sobressai hoje em dia é a visão encarquilhada da minha pele que se confunde com os pedaços de história que não mais recuperam o viço. Envelhecer, coisa a que você foi poupado, é ter a sensação de que, a sua revelia, o fio da vida vai sendo puxado com suavidade, desfazendo o tricô de uma peça que nem mesmo nos foi permitido concluir. Junto a isso vem a fraqueza das vistas, as dores das mais variadas em intensidade e localização, a surpresa da disfunção de um ou vários órgãos, a coluna arqueada, o olhar perdido, a paciência que se confunde com desistência. E outras constatações indisfarçáveis sobre a tolice na crença da eternidade.
Mas, para a minha surpresa, deixaram-me viva para mais este final de ano, e olha que eu duvidava conseguir sobreviver, tanto às minhas guerras particulares quanto à comoção de assistir o mundo se consumindo em violência e sede de poder. Mais cansada e bem mais fraquinha, cambaleando a cada passo, gemendo a cada respiração, cheguei até aqui e não posso garantir que isto seja uma vitória. Afinal, nunca foi do meu feitio o gosto por embates, portanto não me sei vencedora de nada em momento nenhum. Olha que, apesar dos pesares, existe uma chama acesa que me leva a recomeçar com a ajuda de muitos amigos com quem compartilho um brinde de solidariedade e fé. Vamos em frente até quando pudermos!
Minha saudade de sempre,
Sua Amiga



Que bom inaugurar um novo blog!
Texto lindo, a parte final me trouxe alegria e conforto . 🥰
Que bom vc ter retomado a escrita, inaugurando este blog!!! Me marcou a frase em que diz "apesar dos pesares, existe uma chamada acesa que me leva a recomeçar"... Bendita chama, em cada um de nós! Benditos os amigos com quem contamos!
Parabéns pela iniciativa! Sucesso!
Lindo texto! Sobre o envelhecer. Envelhecemos todos nós, em princípio, já que não há, também em princípio, alternativa.
Com o passar do tempo, aprendemos que o que importa não é o que temos, mas sim é a valorização dos pequenos momentos, porque são eles que sustentam a vida quando o resto passa. É o que faz a Autora, valendo-se da memória.
Parabéns pela criação do Blog e pelo lançamento do primeiro texto, que prenuncia tudo de bom.
Parabéns pelo seu novo blog. Fico torcendo pelo seu sucesso.
Parabéns pelo novo blog e obrigada pelo presente desse post inaugural q é tão significativo para mim, ou melhor, para nós. Sucesso sempre!!!!