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A Liquidez do Tempo

Ninguém deveria nascer durante o Carnaval. Assim, seria poupado de carregar o estigma de folião, brincalhão, folgazão... Pessoa para não se levar muito a sério na intermitência de quatro dias de brincadeiras que o perseguirão por toda a vida. Nascer, dando de cara com a possibilidade de ter vindo a este mundo por um obstetra de ressaca, retirando os confetes do jaleco.

Do mesmo lado, ninguém deveria morrer durante o Carnaval. Que coisa mais sem graça ter que retirar, no susto, os amigos dos bloquinhos de rua e deixá-los completamente fora do ritmo e do compasso. Sem falar no sacerdote, contrariado de ter sido afastado do seu retiro espiritual para encomendar, sabe-se lá a quem, a alma do desvivido.

Tem-se o ano inteiro para nascer e morrer à exceção de quatro dias. Não é pedir demais procrastinar esses poucos dias de verão que, aliás, são insuportáveis nesse calor dos trópicos em que nos situamos. Roubar quatro dias dentre o final de dezembro a março, não irá fazer de ninguém um perseguido da justiça, nem dos homens nem da divina.

Vamos lá, é tão coerente homenagear o outono para o início ou término de qualquer empreitada. Fulano nasceu entre março e junho com a renovação da natureza, com a regeneração das árvores após o desapego das últimas folhas, vida nova acontecendo. Ou Fulano que faleceu na poesia do nosso outono austral, no encerramento da colheita, fiel cumprimento da missão, se frutificar tivesse sido sua atribuição.

Tem o inverno inteiro para chegar ou partir. Final de junho a setembro é um tempo muito sério, mais conveniente a despedidas que a boas-vindas. O frio empresta lentidão aos movimentos, são muitas camadas de roupas, propícias à reflexão, à contemplação. Tudo muito solene com questionamentos tanto incessantes quanto inconclusivos, tal qual o “Adagio for Strings” do Samuel Barber: todas as vezes que ouço, a existência me parece tão fluída que se aproxima da idealizada leveza que poderia nos conceder a morte. O inverno poderia ser uma excelente escolha para nascer ou morrer: ambos recheados pelo trágico.

Não vamos nos esquecer que ainda temos a primavera que fica bailando entre o final de setembro e os estertores de dezembro. A alegria deve ser o tom dos eventos nesse período: nascer com uma larga gargalhada de felicidade ou morrer com um sorriso de despedida. Nascer é mais apropriado para esta estação: renovam-se as esperanças numa natureza que também renasce. As flores surpreendem, ressurgindo quando a beleza parecia esquecida; e os pássaros apresentam o canto de seus novos filhotes protegidos nas árvores. O som se espalha na cidade e na alma, nos recordamos daquela velha canção que não cantávamos fazia tempo. Nos lembramos de gente antiga e nos alegramos por tê-las conhecido. Morrer na primavera é piscar o olho e, por milésimo de segundo, pintar no céu algumas nuvens cinzas e passageiras.

Se pensarmos numa espécie de distopia que nos faz estremecer todo início de ano, esperando um acontecimento desolador de grandes proporções, seja acidente aéreo, sejam inundações arrasadoras, seja a eclosão de uma nova guerra nesse mundo de sem deus, podemos imaginar aqui uma realidade mágica, baseada num processo inverso daquele defendido até este momento: que tal se ao invés de ignorarmos quatro dias do ano, convergíssemos somente para esses dias todas as possibilidades de nascer e morrer?  Só seria permitido, no suspiro de um ano, que o Carnaval acumulasse todos os nascimentos e todas as mortes. Apenas neste estreito tempo o direito de alternarmos as alegrias e as tristezas mais significativas da existência humana sem nenhuma exceção, adiamentos ou antecipações. Muita curiosidade se assim fosse, sobretudo porque o significado de insurreição estaria, mais que sempre, atrelado ao Carnaval! Imaginem!

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Meu Caro,

Hoje eu acordei contando as letras do seu nome e as comparei com o número delas no meu nome. Sorri porque ambos temos quantidade pares de letras, só que você tem mais duas para além das minhas quatro.

 
 
 

5 comentários


Renato Soares Menezes
25 de fev.

Considero esse texto um devaneio poético. Impossível de acontecer na realidade, mas possível na imaginação. Me pergunto, todavia, qual seria a intenção da Autora em concentrar as efemérides do nascimento e da morte, anualmente, nos dias de Carnaval... Deixaria de haver Carnaval, com todos ocupados com os numerosos nascimentos e óbitos... De qualquer forma, o lirismo do texto permanece. Palmas!

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Convidado:
22 de fev.

Li seu texto, gostei muito dessas reflexões com as estações do ano e o Carnaval.


A única questão é que meu signo em terra me fez pensar que se ficasse td pro Carnaval seria muito confuso nas maternidades e cemitérios. Mas a ideia de concentrar td me parece boa pra preparação do espírito de quem segue vivo 🤦🏻‍♀️🤷🏾‍♀️🥴 😬🥴🙃😥😓😅

Editado
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Mônica Barros Coutinho
22 de fev.

Muito intrigante e inesperado para mim essa possibilidade de tudo ou nada ( nascer ou morrer) nesses 4 dias de folia... Descreve de forma poética as estações e nos envolve! Parabéns!

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Diderot
21 de fev.

Interessantes todas as suas colocações.

Parabéns pelo seu texto. Bastante inspirador a muitas reflexões.

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Tania
21 de fev.

Pura poesia esse texto. Amei. Valeu a espera. ❤️

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© 2025 por TANIA SALGUEIRO

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