Alguém como eu

Eu não sou ninguém quando ando pelas ruas de Nova Iorque. São tantas as nacionalidades que tropeçam no ritmo dos meus passos. São criaturas que carregam na compleição física as suas procedências, o que me diverte e assusta. Tantos desejos diferentes chegaram até aqui, justificando o caos de uma cidade insone e vibrante, a sugerir oportunidades, na maioria, ilusórias. O Empire State Building me remete a filmes que marcaram para sempre, como “Tarde Demais para Esquecer” e “Sintonia do Amor” ... tenho uma leve inclinação romântica, quase um defeito. Já o Chrysler Building serve aos filmes de aventura, desperdiçando, aos socos, o que o prédio tem de majestoso: “O Homem Aranha”, “Godzilla” e “Os Vingadores” ... uma cidade de incontáveis arranha-céus. No entanto, eu prefiro mesmo é andar pelo Parque Suspenso do Rio Hudson. Esquecer do tempo caminhando pelo Central Park, é uma experiência que não se mede pelo exercício físico: é como folhear um álbum de paisagens, pois a cada passada depara-se com um cantinho acolhedor inspirado em sonhos bons. Evito a Time Square porque ultrapassa a minha capacidade de suportar a confusão das luzes em movimento: é vertigem seguida de náusea. E com isso não tenho permissão para chegar até aos teatros da Broadway. Uma cidade para se conhecer com certeza, mas para fixar residência as condições são outras.
Eu não sou ninguém quando ando pelas ruas de Nova Déli: a confluência de religiões me faz perder a direção, e os sinais de alerta são acionados a partir das moléculas mais insignificantes do meu corpo. Impossível entender que o país mais populoso do mundo se tornou independente - dos britânicos - praticando uma resistência não violenta: quando eu espio pela fresta da minha janela, concluo que essa é uma situação inconcebível nos dias atuais. Perambular por tantas vielas é diversificar a atenção no que diz respeito à quantidade de gente, animais e templos. Tudo é superlativo e parece que destino é coisa sagrada do qual ninguém escapa: a arquitetura é exuberante em riqueza, a desigualdade social é avassaladora, as mais de vinte línguas disponíveis anulam a pretensão de fazer-se compreendido, ou então, ser assaltado em plena luz do dia por micos que nos levam qualquer coisa e desaparecem impunemente, são exageros que se contradizem com facilidade. Parece um povo que, para a sua defesa, tem um exército de deuses, ao gosto dos mais variados devotos. Não preciso me deslocar até a cidade de Agra para contemplar o que o Taj Mahal tem de beleza. Basta que eu me aproxime do magnífico templo ecumênico de Lótus, ou do observatório Jantar Mantar de instigante edificação, ou do provocante minarete Qutb Minar cujos tijolos trabalhados são incansáveis no chamamento às orações, ou ainda admirar as três cúpulas da mesquita Jama Masjid, capaz de acomodar vinte e cinco mil indivíduos no mais absoluto silêncio. Os delienses parecem velhos; até mesmo as crianças não escapam dessa ancestralidade genética, impregnada nos olhos, na cor da pele, na aura. Tudo é exótico como o consumo das especiarias que desafiam o paladar do mundo.
Eu não sou ninguém quando ando pelas ruas de Sarajevo. A começar que Sarajevo é capital de um país que me parece ter nome e sobrenome de uma personagem feminina de temperamento forte: Bósnia Herzegovina. E Sarajevo, pode ser o chamamento de um filho em qualquer roteiro. Não à toa, foi na capital deste país que o assassinato de um arquiduque desencadeou a Primeira Guerra Mundial. A história elenca várias tentativas, todas sangrentas, de vir a ser anexada aos desejos dos ambiciosos: há pouco livrou-se do jugo da Iugoslávia para, em seguida, ser atacada pela Sérvia. Sarajevo, de tão bombardeada pela insanidade dos dominadores, assimilou de seus algozes a multiplicidade cultural, e construiu templos religiosos para satisfazer todas as possíveis personalidades de Deus, mas parecem ser as cinco montanhas que a rodeiam sua maior proteção. Lava suas frustrações na proximidade dos cinco mares que banham a Península dos Balcãs, enquanto sonha tornar-se, qualquer dia desses, uma cidade europeia. Talvez seja por orgulho a exibição em alguns prédios dos sinais deixados pelas muitas guerras; talvez seja por compaixão que o Rio Miljacka atravessa a cidade, querendo trazer de volta os pássaros que fugiram, tal qual os humanos, em busca de lugares mais seguros; talvez seja por vaidade que a visão noturna do Museu Histórico nos deixe embevecidos com aquela fachada toda iluminada; talvez seja a confiança inabalável numa paz duradoura que empresta à Sarajevo um ar aconchegante, com seus cafés e restaurantes, lotando os hotéis de turistas em busca de sossego.
Eu me reconheço na confusão de sotaques que acontece em Brasília. A gente adivinha de onde vieram os migrantes porque a entonação das palavras os deixa expostos à saudade das próprias origens. Abandonos, muitas vezes complexos, reuniram aqui seres diferenciados. Antes de perguntar o nome de alguém, se tem por hábito eleger uma região e pedir que a pessoa confirme seu lugar de nascimento. Em Brasília as vias públicas são generosas, nelas colhem-se frutas nos diferentes períodos do ano: de novembro a janeiro as mangas se oferecem; fevereiro e março as jacas desafiam, no peso, quem as pegue. Tantas outras delícias buscam a atenção de quem se aventura pelas enfileiradas Quadras arborizadas - invencionice dos projetistas, e audácia do construtor. Em Brasília a profusão de carros denuncia a ineficácia dos transportes públicos – vergonha estruturada, sacrificando os menos afortunados. Vá a pé ou peça carona, sua saúde mental corre menos riscos dispensando os raros coletivos urbanos. Em Brasília ainda é possível acompanhar o voo das araras azuis, a algazarra das maritacas recolhendo das árvores as sementes, e tantas outras aves que fazem de nós seres distraídos, olhando para o alto. Mas são os Ipês que fazem essa cidade ser bem servida de cores: encantam mesmo quando as flores, cansadas, ainda enfeitiçam numa espécie de tapete que o vento assopra. Brasília tem suas demasias porque quando faz calor ninguém aguenta, e quando a noite cisma de ser fria, não há cobertor que dê conta da intensidade. O que ninguém consegue mesmo reclamar, é do céu de Brasília: sabe inaugurar os dias e convidar a lua, desafiando qualquer pintor a reproduzir tanta magia. Me reconheço em Brasília porque muitos são gentis quando não estão atrás de um volante - o trânsito exige extrema paciência. Me reconheço em Brasília porque foi ela a abraçar algumas das minhas realizações e vem acolhendo a minha velhice com certa indulgência. Pode ser que alguém, assim como eu, atravessado por uma dimensão mítica qualquer, se sinta por inteiro andando pelas ruas daqui.





Que delícia viajar por essas cidades, através de tuas palavras. Tão bom, tão bom q acabou mto rápido! 🤓
O seu texto me levou com vc a caminhar por cidades onde nunca estive e por Brasília, onde morei qdo criança e saí em 1974... As árvores que lembro eram do mato mesmo, como a "árvore torta"... não vi os ipês... Mas fiquei pensando como é bom nos sentirmos em casa, acolhidos, podendo pegar a fruta que a árvore oferece... Certas coisas não têm preço...
Concordo!!!! Supimpa mesmo!!!!!
Ao citar quatro cidades do nosso Planeta - Nova York, Nova Delhi, Sarajevo e Brasília - a Autora se identifica com uma delas, aquela onde reside há anos e que faz parte da sua cultura. As três outras cidades provocam a sensação do desconhecido: ingressa-se com um certo perfil e sai-se com uma visão diferente do mundo. Verdade: é isso que as viagens nos oferecem: o conhecimento de outras culturas, de outras civilizações, de outros costumes, de outras Histórias... Viajar para novos destinos enriquece-nos, não apenas culturalmente mas também espiritual, intelectual e emocionalmente. Trata-se de uma bagagem valiosa a não ser desperdiçada, uma bagagem que nos forja e nos oferece a oportunidade de alcançarmos outros patamares da existência, de termos consciência de que é na diversidade que…
Penso que a autora, por trás da aparente humildade (“eu não sou ninguém”), quer dizer que a identidade verdadeira nasce do atrito com o mundo: caminhar é entrar em contato com diferenças demais para caber numa versão fixa de si. Ao repetir o refrão, ela parece aceitar que está sempre incompleta, sempre em trânsito - e que cada cidade a transforma em leitor de sinais, não em narrador dono da verdade.
No fundo, creio que a mensagem é sobre limites afetivos: algumas cidades pedem recolhimento, outras exigem coragem, e nenhuma delas “resolve” a pessoa - apenas a revela em diferentes versões, sempre provisórias, sempre caminhantes.