Nem tudo eu sei escrever

Eu escrevo porque não recebo mais nenhuma carta, porque faz muito calor, porque detesto o frio, porque não comemoro nada em janeiro e nem todas as minhas canetas secaram.
Eu escrevo porque brinco de liberdade: me desvencilho de algumas mediocridades, enquanto coloco outras na vitrine.
Eu escrevo porque as palavras que conheço guardam da eternidade apenas a poeira do tempo.
Eu escrevo porque os dias escorrem em lembranças e surpresas.
Eu escrevo porque tenho amigos e suponho que permanecerão apesar da distância, do meu silêncio e dos lapsos espessos da prioridade.
Eu escrevo porque as minhas mãos desconhecem a LIBRAS. Assim preservo, sem culpa, a ignorância e a surdez do mundo.
Eu escrevo porque existem sentimentos que não cabem no verbo.
Eu escrevo porque sobro no excesso de cigarros e na preguiça de providenciar mais um café.
Eu escrevo porque meu corpo guarda do mar o salgado do batismo. Mas o oceano está tão longe que só o alcanço em pensamento.
Eu escrevo porque não sou indiferente ao canto dos pássaros, nem ao colorido que alegra as flores.
Eu escrevo porque o curativo da minha ferida pode aliviar algum prejuízo de alma.
Eu escrevo porque a minha solidão é ímpar e vai sendo arrastada pelos dias pares.
Não sei buscar palavras quando a violência é um exagero do medo.
Não sei buscar palavras quando a raiva derruba qualquer senso de justiça.
Não sei buscar palavras quando assisto ao crime, ou quando sou eu a cometê-lo.
Não sei buscar palavras quando o desespero espanta a esperança.
Não sei buscar palavras quando caminho nos destroços das minhas guerras.
Não sei buscar palavras quando o gesto não acompanha a intenção.
Na verdade, preciso mesmo é fazer as malas e me enriquecer de mundo.





Para a Autora a escrita é uma força que vem de Deus, ou seja, enquanto Deus permitir ela escreverá. Escreve com o coração e onde puder escrever ela lá estará. Multiplica o conhecimento, espalha o domínio que possui sobre a escrita para descrever seus sentimentos, suas expectativas, suas vivências, suas observações sobre a vida. Escreve na busca do belo, do simples, do bem, do amor. Mas diz não saber escrever sobre o antagonismo desses sentimentos. Às vezes, escreve sobre a tristeza e a solidão, sentimentos que quase sempre estão de mãos dadas com a beleza e a simplicidade. E a escrita escorre por palavras que provocam emoções e reforçam as reflexões. Bravo! É um dom que vem lá de Deus!
Texto forte, com ritmo intenso.
Um deleite!!!!
E mem precisa de motivo. Só continua...👏👏👏
Escrever, ler, reler e deixar fluir as emoções compondo um texto faz parte de você de forma intensa. Sabe lidar com as palavras para apresentar aquilo que pensa e sente encantando os seus leitores. Este seu trabalho navegou na 1ª pessoa entre aquilo que sabe [escrever] e o que "não sabe" no seu entendimento. São percepções internalizadas na sua janela da vida e neste sentido agradeço muito por compartilhar. Sucesso!!
Ficou mesmo lindo!!! E a parte final está primorosa !!!!