Não é nada disso

Não. Não é um jardim desabitado, é um espaço invadido de uma saudade exibicionista.
Não. Não é um caramanchão vazio, é um templo trancado. Nenhuma oração capaz de irrigar a paz.
Não. Não é um livro empoeirado sobre a mesa, é um diário interrompido. Uma biografia ceifada.
Não. Não é uma xícara de café esquecida sobre a madeira envelhecida, é a premiação na loteria dos abandonos.
Não. Não é sobre liberdade a cortina esvoaçante, é somente as lembranças brincando nas curvas do dia.
Não. Não é delicadeza as rosas preservadas em um pote, é o perfume de uma fotografia que o tempo assustou.
Não. Não é uma cadeira vazia esperando ser ocupada, é tudo de importante que ficou sem referências.
Não. Não é uma almofada largada sobre o banco de jardim, é o pó das recordações agarrado no passado.
Não. Não é uma tarde se despedindo, é o sem propósito da eternidade ferindo meus olhos.
Não. Não é a beleza da paisagem que me comove, é saber que não haverá mais quem a regue.
Não. Não é outono, primavera ou verão, é o inverno na alma trêmula acometida pelo imponderável.
Não. Não é a sua ausência que me entristece, é a possibilidade de um dia a memória varrer em mim todas as reminiscências.





Sei não... Muita realidade para pouco sonho...
A criatividade segue muito expressiva.
O texto é super intenso e doído.
Difícil até decifrar os próprios sentimentos, sinal que mexeu uma barbaridade, não é mesmo?
Muito impactante o seu texto... Fiquei sem saber como explicar o que estava sentindo. Lembrei do mito da Verdade nua e crua... A Mentira vestida com as roupas da Verdade é bem aceita. Mas a Verdade, nua e crua, é difícil... E foi uma escolha da Verdade sair nua, uma recusa a vestir as roupas da mentira, que a enganou e roubou as suas roupas... Lembro também do Cazuza, " mentiras sinceras me interessam"...
Parabéns!
Não, não é simplesmente o que se vê de forma estática. È o que a imagem nos provoca, nos traz à memória, nos recorda o que aconteceu ou nos faz imaginar o que poderá acontecer com base na experiência vivida, nos emociona e nos faz reviver de maneira pulsante os sentimentos que cada objeto do quadro ou da pintura nos traz ao de cima, seja um banco, seja uma almofada, seja uma flor. Olhamos a imagem e mergulhamos nas lembranças que ela nos leva a reviver. E, a cada olhar, as recordações são novas, diferentes, como um livro que a cada leitura nos traz novos sentimentos, novas descobertas, novas interpretações. A isso se chama ARTE.
O eu que se apresenta falando tenta corrigir o mundo, nomeá-lo novamente, porque as coisas visíveis já não correspondem ao que ele sente. A repetição de “Não. Não é...” sugere uma consciência incapaz de aceitar a realidade tal como ela se apresenta.
Por meio de repetidas negações, objetos cotidianos tornam-se símbolos de memórias, abandono e vidas interrompidas. As perdas se manifestam não é apenas pela falta de alguém, mas pelo medo de perder também as lembranças - e, com elas, parte da própria identidade.