Naturalmente Mistério

Lá, onde o sol abraça o céu, anunciando ciclos ininterruptos que remetem em iguais quantidades às chegadas e às partidas, forma-se uma estreita e singular unidade de tempo a partir da qual os dias podem ser contados. Nesses instantes tudo fica em suspenso, seja pelos sinais de que há um futuro sendo aquarelado, seja pelas evidências de que a despedida se aproxima, recolhendo os tons de amarelo e rosa que foram generosamente estendidos pela manhã. São dois momentos em que a natureza se expressa, sobretudo os pássaros, que na linguagem que lhes é própria, externam o que em nós não se expande para além do silêncio e da reflexão. A natureza se liberta enquanto nós, em estado de encantamento, recolhemos todas as palavras e, na nossa extrema impotência, tentamos, mesmo sabendo inútil, decodificarmos o enigma da existência que flexiona os nossos pulmões e bombeia os nossos corações.
Nessas horas, com bastante frequência, meus olhos ficam salgados, verdadeiros náufragos em um oceano de hipóteses inconclusivas. Curiosamente eles se mantêm calmos, apesar de experimentarem uma sensação crescente de amplitude. Um certo desconforto quando vislumbram a probabilidade de ser infinita a dimensão do universo. Nesse momento me ocorre que Deus, desnudo de todas as metáforas da criação, possa se apresentar muito didaticamente, provendo-me do entendimento da vida, inalcançável, por mais que constantemente perseguido. A resposta é o silêncio. E o vento, que sem se fazer anunciar, acontece, ocupa a coreografia das aves, que em pleno voo espalham leveza em tudo o que em mim é desistência. Vez e outra um animal se destaca, chamando a minha atenção, me resgatando das interioridades que são só minhas e que nunca conseguem ser verbalizadas. Eu sorrio apenas com os meus olhos porque solidão não cede a compartilhamentos. Assim absoluta. Assim irrevogável.
Se o dia nasce, bem sei que se deu o velório da noite. Se o dia é despedida, deve-se à urgência atabalhoada com que a noite reivindica o direito de ser. Todos os dias nascemos e morremos conduzidos pelo sono com o qual esboçamos, em sonhos, o nosso destino a inaugurar sempre um novo alvorecer. E somos tão esquecidos, tão desatentos... Mas haverá sempre o dia em que distraídos, cortaremos a paisagem do existir e seremos, por inteiro, o mistério improvável de Deus, perpetuados na saudade daqueles que, por uma ocasionalidade qualquer, lembrarão do que fomos para eles.





Esse texto me emocionou muito... Por isso difícil de falar... Parabéns por ter conseguido colocar de um modo tão delicado e bonito essa questão da vida e da morte! Bjo
Parabéns!
Amei a fluidez do texto. Avforma e o conteúdovem perfeita sintonia.
Sim, ``uma das mais belas escritas``, pronunciou alguém. Mas, como assim? Onde está a beleza do texto? Na interpretação de cada leitor? Na procura do que a Autora quis transmitir? No hermetismo da conjunção das palavras, belas por si próprias? Busca-se desvendar o mistério da vida ou da existência terrena - tarefa difícil, quiçá impossível. A cada leitura, descobre-se uma nova faceta do que a Autora quereria dizer ou desvenda-se uma nova interpretação das palavras, já não mais seguindo a autoria, mas na dependência ou consequência dos nossos próprios sentimentos no momento. O que permanece da leitura, contudo, é simples, e por isso mesmo belo: a vida é feita de um dia após o outro, com a noite no meio... Até…
Valeu aguardar essa nova resenha após um intervalo extenso. Uma das suas mais belas escritas. Direta ao coração.