No giro do pião
- Vera Cristina Menezes

- 9 de mar.
- 2 min de leitura

Por sobre o chão de terra batida, o pião gira trêmulo, embalado no alvoroço daqueles pequenos, descobrindo suas habilidades. O pião roda, acionado pelas mãos ainda não de todo crescidas em corpos ainda por serem plenamente formados. E o pião roda no susto das histórias de ninar, na obediência aos pais, bem abaixo do estranho mundo dos adultos tantas vezes interditado, roda na pureza e na quase inocência de ser criança. E o pião roda na intimidade dos dias talhados nas brincadeiras, na imaginação de heroicas aventuras, nas chamadas para banhos e refeições – estraga prazeres. E o pião continua rodando na obrigatoriedade de dormir quando a vontade de emendar um dia no outro é contrariada. E os amigos, tão fáceis à aproximação, vão chegando sem cerimônia, aumentando a quantidade de piões rodopiando a infância. (Aprendendo a rodopiar)
Lá está ele na estante. Para além das marcas de uso, também lida com a poeira do esquecimento. Quase se esconde entre livros de sabedoria e outros de encantadoria. Mas basta um olhar na sua direção para surgir um feixe de luz no rosto, agora adulto. Ao seu lado, uma fotografia antiga parece justificar sua existência: uma turma de miúdos reunida, admirando a coreografia dos rodopios, enfeitando a simplicidade de se saberem alegres. Perdeu-se o nome de alguns, outros nunca mais foram visitados, enquanto poucos a fotografia não conseguiu preservar qualquer referência. Agora os dias são outros, por vezes se arrastam em reuniões de negócio, outras vezes passam apressados no tempo de um sorriso. Um sorriso de quem pega fôlego, olhando na estante o pião que rodopia apenas na memória. A família é responsabilidade, o trabalho acumula obrigações, os amigos são poucos e quase nunca prioridade frente a tantos compromissos que vão embranquecendo sua cabeça. O filho cresce enquanto ele tenta garantir-lhe o futuro. E o pião assiste o esforço e o cansaço, aguardando que um dia aquelas mãos tão vigorosas o façam rodopiar novamente, servindo com a mesma alegria o tempo, já esmaecido, da fotografia ao seu lado. (Rodopio estabelecido)
E o pião sai da estante, girando no piso que contorna a piscina. As mãos, ainda vacilantes, repetem o movimento do passado, e os olhos envelhecidos acompanham o neto jogando novas cores e novos personagens, numa das esquinas mais iluminadas da sua existência. E o tempo repete a mesma emoção, confundindo o passado no presente, e lançando intensidade nas possibilidades futuras. E assim, o neto é embalado pelas histórias de ninar, sua imaginação entusiasmada mergulha na fantasia. Há os limites que lhe são impostos, enquanto outros ele descobre sozinho, geralmente na frequência dos joelhos ralados. Nesse jogo de aprender, é ele quem lembra ao avô a leveza de preservar a meninice, independente dos sapatos escolhidos ao longo do caminho. (Rodopio definitivo)
O pião rodopia, mas é a vida que gira.



Mais uma crônica que versa sobre a passagem do tempo. Desta vez, a medida é um pião que rodopia quando somos crianças, que descansa na estante quando nos tornamos adultos, que volta a rodopiar quando há novas crianças na família e assim continua o ciclo, enquanto vida houver - ou enquant o pião durar, e até ele mesmo ser substituído por um novo exemplar. E aí surge a dúvida: será mesmo que um novo pião substituirá o antigo ou o velho pião acabará por permanecer na estante, esquecido, diante das novas brincadeiras, novos jogos, geralmente eletrônicos? O mencionado ciclo continuará, de forma definitiva, como parece preconizar ou desejar a Autora, ou acabará por findar, de forma também definitiva?
É impressionante como nos transporta para o texto, como se estivesse de fato presente, vendo o pião rodar... E vou no ritmo do texto, encantada... Parabéns! Seu dom, talento é especial!
Nossa, um dos meus favoritos! Mão e luva.